Saúde – Direito de todos e dever do Estado? Aqui não!

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E mais uma republicação –  texto publicado originalmente no Brasileiras pelo Mundo, em 14 de outubro de 2013, e que pode ser acessado neste link.

Neste texto eu falo um pouco sobre as minhas primeiras impressões sobre o sistema de saúde americano. 

Até a próxima!

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O sistema de saúde nos EUA não é fácil de entender. Para mim, desvendá-lo foi uma caixinha de surpresas e continua sendo cada vez que recebo um novo boleto médico para pagar! E como estamos em uma fase onde o que mais se escuta aqui nos EUA é a palavra ObamaCare, resolvi contar um pouco sobre como o sistema de saúde americano funciona.

As pessoas têm a impressão de que tudo funciona muito bem aqui nos EUA, inclusive o sistema de saúde. Eu ainda me lembro de um quadro de humor que eu ouvia no Programa Jovem Pan, de São Paulo, onde havia um menino que falava “Pô Pai, os Americanos são muito melhores”! Esta é a impressão. Mas não é bem assim. De acordo com a WHO (World Health Organization), os EUA ocupam a 37ª posição no ranking que mede a performance dos sistemas de saúde no mundo.

Na minha opinião, um bom sistema de saúde = bom médicos + bons hospitais, com baixo custo ou custo zero. Quando mudamos para os EUA, recebemos as carteirinhas do seguro saúde, junto com uma apresentação em Power Point de muiiiiiitas páginas, explicando como o plano funcionava. Achei que não havia mistério. Você vai ao médico, apresenta sua carteirinha do seguro e pronto.

Então logo no início meu marido teve alguns problemas: primeiro foi uma dor no peito, seguida por uma alergia pelo corpo todo. Tivemos que achar um médico que o atendesse em uma consulta o mais rápido possível. Descobrimos que isto nem sempre é possível quando se trata da primeira consulta. Talvez por ser uma consulta mais demorada, talvez porque o plano de saúde tenha que confirmar sua cobertura, mas muitas vezes leva alguns meses para você conseguir a primeira consulta com um médico mais renomado. Bem, até ai, igual ao Brasil.

Meu marido foi ao clínico geral (chamado aqui de Internist, ou GP General Practicionist na Inglaterra). O médico fez alguns exames e meu marido foi medicado. Nada grave. Após alguns semanas, recebemos uma conta em casa no valor de US$ 710. Foi ai que meu marido quase teve um ataque do coração! A cobrança era referente a parte do Eletrocardiograma que o seguro não cobriu! O eletrocardiograma que você faz no consultório, sabe aquele que dura alguns minutos e o médico imprime o resultado na hora? O valor total do exame foi de US$ 1.883, que o médico cobrou do seguro, que por sua vez deu cobertura parcial ao exame. E o problema é que ninguém informa o quanto você vai pagar no dia da consulta. Você recebe a triste notícia pelo correio, semanas depois.

Ao marcar um exame você pode falar no Billing Department (Departamento de Cobrança) e se informar sobre sua cobertura, se terá que pagar algo extra e quanto. Mas nem sempre o valor informado é correto. Fiz um exame no início do ano, fui informada que deveria pagar US$ 890 do meu bolso. Mas depois apareceram outras cobranças extras e acabei desembolsando quase US$ 1.500!

E se você não pagar? Bem, se você não pagar ficará com seu nome sujo, o que impacta o famoso credit history, explicado no texto Credit History e o Efeito Tostines. Se você não tem condições financeiras, precisa negociar para pagar a dívida em suaves prestações.

Além do prêmio mensal do seguro, você ainda tem que considerar os gastos extras a cada consulta ou exame. Com a exceção de quando você vai ao médico uma vez por ano para seu check up (chamado aqui de Annual). Ai você não paga nada, os exames e consulta estão incluídos, pois trata-se de prevenção.

Nós somos uma família composta por dois adultos e uma criança. Em dois anos nos EUA já desembolsamos US$ 7.857 em contas médicas. Sem contar o prêmio mensal que é deduzido do salário do marido, no valor de US$ 452. Somando tudo, foram gastos US$18.705. E não temos nenhuma doença crônica. Nunca fizemos uma cirurgia. Somos saudáveis, e apenas tivemos gastos com problemas rotineiros. Eu fico imaginando a situação daqueles que têm problemas de saúde graves e necessitam de atendimento constante.

Hoje 48 milhões de americanos não tem seguro saúde. As seguradoras cobram o que querem e podem rejeitar um paciente por ele ter uma doença crônica, por exemplo. As seguradoras não dão cobertura a quem tem mais de 65 anos. A partir desta idade todos migram para um plano chamado Medicare, administrado pelo Governo federal.

O ObamaCare está tentando incluir estes 48 milhões de americanos em algum tipo de seguro. Basicamente todos serão obrigados a ter um seguro médico, de forma que, se mais pessoas pagarem, o custo baixe para todos (ao menos esta é a intenção). Haverá auxílio para quem ganha abaixo da linha da pobreza e quem não tiver seguro terá que pagar uma multa.

E finalmente não poderia deixar de falar do custo dos remédios. Não vou entrar na discussão dos porquês, mas o custo dos remédios nos EUA é o mais caro dentre os países desenvolvidos. E a indústria farmacêutica é um dos setores mais lucrativos e poderosos dos EUA. Quer um exemplo?

Fui ao médico, e ele me receitou uma pomada. Quando fui a farmácia, a atendente me perguntou, “você está preparada?” “Preparada para que?” eu respondi. “O custo da pomada é de US$ 502 e seu seguro não cobre”! Recusei a compra e fui pesquisar o preço do remédio no Brasil. O custo do mesmo medicamento era de R$ 98. Como isso é possível??? Não é à toa que conheço muita gente que compra remédios no Canadá, pelo correio!

Então não se esqueça: se vier aos EUA a passeio, faça um bom seguro de viagem, e se estiver se mudando para cá, prepare-se para gastar parte de sua renda em saúde!

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